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quinta-feira, 26 de maio de 2011

DÍZIMO NA BÍBLIA

Para se falar de dízimo, é preciso, antes de tudo, considerar uma verdade de ordem antropológica e histórica: o homem sempre se viu na necessidade de oferecer algo à Divindade, de desfazer-se mesmo de algum bem seu para consagrá-lo a Deus.

Na verdade, o dízimo bíblico é apenas uma das formas pelas quais o homem tem expressado esse seu relacionamento com a Divindade. Outras formas historicamente detectáveis ao longo dos tempos são: o oferecimento das primícias, o pagamento de impostos ou tributos religiosos, os sacrifícios, os votos e promessas, obras de arte, etc.

O homem é um ser naturalmente religioso, isto é, o intercâmbio com a Divindade sempre caracterizou o seu modo de ser em todos os tempos e culturas: sejam mencionados os agradecimentos pelos benefícios, os pedidos de favores, a reconciliação, o reconhecimento da bondade divina, a atenção à vontade do alto... Tudo isso podemos encontrar onde quer que o homem se tenha feito presente. É, pois, sobretudo em relação à religiosidade natural do homem que devemos entender e fundamentar o dízimo. Este é um fenômeno essencialmente religioso.

É claro que a religiosidade natural do homem expressa-se de diversos modos, e podemos dizer que há expressões religiosas mais primitivas ou mais maduras. Há motivações marcadas pelo temor ou pelo amor; há atitudes esclarecidas ou supersticiosas. O certo, porém, é que, todas as culturas, desde o homem pré-histórico, sempre foram marcadas pela religiosidade do homem, que o leva a oferecer algum bem (valor) à Divindade. Trata-se de uma constante humana.

Nós cristãos também temos nossos bens que oferecemos a Deus, e o fazemos dentro de nossa concepção de Deus. Deus, embora habitando numa luz inacessível, não quis ficar totalmente invisível para nós. Em Jesus, assumiu um rosto humano, e falou-nos como a amigos, convidando-nos a entregarmo-nos a seu amor. Nossa relação cristã com Deus tem como base, portanto, o amor que Deus mesmo nos dedica e que nos impele a amar.


EXPRESSÕES BÍBLICAS


1. Antes da lei: ofertas espontâneas

A Bíblia está fundamentalmente marcada pela religiosidade humana. É, antes de tudo, um livro religioso. Desde suas primeiras páginas, testemunha a dependência do homem para com Deus ao falar da criação. É verdade que reconhece a primazia humana entre as criaturas terrestres, mas vê a grandeza do homem, criado à “imagem e semelhança” do próprio Deus, sob a dependência e providência divinas.

O relato da criação nos mostra o homem como cultivador e zelador dos bens de Deus (cf. Gn 1,8-15), mas nos mostra também que este mesmo homem deve reconhecer a soberania de Deus, deixando uma parte desses bens reservada exclusivamente a Deus (cf. Gn 1,16s; 3,5.22).

Caim e Abel são dois representantes da humanidade primitiva. Um dedica-se ao trabalho agrícola, o outro à criação de gado, que são as duas atividades produtivas essenciais. O relato nos mostra ambos a oferecer a Deus parte dos frutos de seu trabalho (cf. Gn 4,3-4).

Noé, pai de uma nova humanidade, após o dilúvio, oferece a Deus um sacrifício (cf. Gn 8,20) e Deus faz uma aliança com ele e com sua descendência.

A partir de Abraão já adentramos as tradições referentes especificamente ao povo israelita. Abraão é considerado o pai da fé, uma vez que movido por ela, saiu de suas acomodações territoriais e familiares e constituiu o povo de Deus. Gn 14 apresenta-nos Abraão, depois de uma ação bélica vitoriosa, carregado de botins de guerra, a oferecer “a décima parte de tudo” ao sacerdote do Deus Altíssimo, Melquisedec, que acabava de abençoar Abraão (cf. Gn 14,18-20).

O dízimo entregue por Abraão ainda não é o dízimo prescrito pela legislação mosaica. Abraão viveu cerca de meio milênio antes de Moisés. Mas a atitude do pai da fé expressa sua religiosidade e o costume antigo de pagar dízimos aos reis, que em geral exerciam também funções sacerdotais. Os israelitas, ao entregarem o dízimo segundo as prescrições mosaicas, terão a satisfação de ver em Abraão o patriarca que os precedeu também nisto.

Devemos notar ainda que a oferta de Abraão não é feita diretamente a Deus, mas a seu representante Melquisedec. Essa será a forma de ofertar a Deus que irá prevalecer entre os israelitas, ainda que não se exclua totalmente que o indivíduo possa fazer praticar outras formas de oferta.

O patriarca Jacó também deu o exemplo da disposição de pagar o dízimo: “Pagarei o dízimo de tudo que me derdes, ó Senhor” (Gn 28,22). Vemo-lo depois a cumprir o seu voto (Gn 35,1-8.14).

Portanto, embora não mencionem uma lei do dízimo, as antigas tradições sobre os patriarcas evidenciam que eles conheciam e praticavam o costume de entregar o dízimo.

Outro exemplo ainda de espontânea contribuição de bens materiais para o serviço de Deus e de seu culto, temos, quando Moisés, no deserto, recolhe doações para a construção do tabernáculo (cf. Ex 25,1-9).

2. A legislação mosaica

A história do dízimo como instituição legal entre o povo israelita percorre um longo caminho. Podemos distinguir várias “camadas” na legislação mosaica. Deve-se notar que a legislação mais antiga ainda não traz uma lei do dízimo, mas sabemos que ele era praticado.

Uma legislação bem antiga, denominada “código da Aliança”, insta o israelita a não adiar a oferta tomada do produto da eira e do vinho novo (Ex 22,28), e acrescenta-se a exigência da oferta das primícias (v.29s).Quando o povo de Israel pede um rei, o profeta Samuel adverte que o rei terá direito de recolher os dízimos das semeaduras, das vinhas e dos rebanhos.

Em Levítico 27, 30-33, temos uma motivação para a entrega dos dízimos, que soa bem antiga: Os dízimos são propriedade do Senhor, porque dele é toda a terra e seus produtos. A Deus pertencem os dízimos dos produtos do solo e das árvores (v.30) como também os dos rebanhos (v.32).

Já a legislação de Números 18,21-32 acentua que os levitas têm direito de receber o dízimo, uma vez que se dedicam ao serviço do santuário e, por isso, não receberam território próprio (“herança”) como as demais tribos; por sua vez, os levitas devem entregar ao sacerdote Aarão uma décima parte dos dízimos que tiverem recebido, ou seja, um “dízimo do dízimo” (Nm 18,26). Essa legislação está ligada ã idéia de conquista da terra de Canaã, e não estipula o lugar onde se devem entregar os dízimos.

É a legislação deuteronomista (cf. Dt 12,6.11.17) que estipula que os dízimos não devem ser entregues em outros santuários, senão no de Jerusalém. Como tal determinação tornava às vezes por demais oneroso o seu cumprimento, a legislação permitia que se trocasse os dízimos em espécie por dinheiro, que, por sua vez, podia ser reconvertido em espécie em Jerusalém (cf. Dt 14,22-26). Essa legislação decorre da centralização do culto efetuada pela reforma do rei Josias (pelo ano de 620 a.C.). O texto, porém, cuida de que não sejam negligenciados os direitos dos levitas que moravam em outras cidades (v.27), bem como, a cada três anos, o atendimento, mediante os recursos obtidos pelo dízimo, do estrangeiro, do órfão e da viúva, portanto dos necessitados (v. 28-29).

Dt 26,1-11 descreve o ritual das primícias com a respectiva oração que o ofertante pronunciava. Quando o israelita queria “resgatar” (retomar) algo que deveria entregar como dízimo (entenda-se a décima parte), devia compensar seu valor e acrescentar 1/5 do valor “multa” ou “ágio” de 20% (cf. Lv 27,31 [5,16]; 27,14s.19).


3. O Novo Testamento

No novo Testamento, podemos notar: a) uma certa polêmica contra os exageros da praxe do dízimo mosaico como então concebido; b) a consciência de que todos os cristãos devem dar sua contribuição material.

A) Jesus denuncia o exagero dos doutores da Lei que, ao tempo do NT, haviam estendido o dízimo até às especiarias (cf. Mt 23,23: menta, anis, cominho), enquanto descuravam coisas muito mais básicas da Lei (cf. também Lc 11,42). Jesus não desautoriza o dízimo, mas chama a atenção para os fundamentos da religião e o perigo de que sejam empanados por práticas hipócritas. O que Jesus condena é, na verdade, uma inversão de valores. Combate sempre a hipocrisia. Vem ao caso, o episódio do fariseu auto-suficiente que subiu ao Templo para orar, ufanando-se de que “pagava o dízimo de tudo” (Lc 18,12). Em Mt 17,24-27, temos o relato segundo o qual Jesus, assim como todo judeu, pagava um tributo ao Templo. Não se trata aqui do dízimo evidentemente. Era um tributo entregue anualmente. Contudo, Jesus só o fazia para não escandalizar, prevenindo que “os filhos do Reino” estavam isentos. Pode-se dizer que os cristãos, desde o início, se sentiram desobrigados da legislação mosaica, pois já não estão sob o regime disciplinar da antiga Lei. De fato, a Igreja primitiva não praticou o antigo dízimo.

B) Mas temos no NT evidentes testemunhos – e também princípios explícitos – de que o cristão deve dar a sua contribuição material para as necessidades da comunidade religiosa e o andamento do ministério da Igreja. Ao enviar os discípulos, Jesus diz expressamente que eles têm o direito de serem sustentados por aqueles a quem anunciam o Reino (cf. Lc 10,2-10). O operário é digno de seu sustento (cf. Mt 10,10). Quando Jesus também manda dar a Deus o que é de Deus (cf. Mc 12,13s), pode-se, por inclusão, entender todos os deveres religiosos, inclusive a manutenção do culto. Paulo organiza uma coleta em favor da Igreja-mãe de Jerusalém (cf. 2Cor 8,1-9,15), argumentando com a comunhão na fé (9,13). Em Gl 6,6, temos o seguinte princípio: “O catecúmeno reparta todos os seus bens com aquele que o catequiza”. O pensamento básico do Apóstolo, vê-se em 1Cor 9, 4s.

Em resumo, o Novo Testamento ensina que os antigos tributos religiosos regulamentados pela Lei mosaica (dízimos, primícias, etc.) estão superados para os “filhos do Reino”. Por outro lado, o cristão tem o grave dever de contribuir materialmente com a missão da Igreja ou com a causa da pregação do Evangelho.

Autor: Padre Elílio
Fonte: http://padreelilio.blogspot.com/

quarta-feira, 25 de maio de 2011

A AUTORIDADE BÍBLICA

Os protestantes se dividem em duas linhagens diferentes: protestantes ortodoxos tradicionais, que seguem o ensino dos "Pais de Igreja" protestante, Lutero, Calvino, Zwinglio e Knox; e protestantes modernistas ou liberais. A forma mais clara para distinguir os dois está na sua atitude em relação à Bíblia. Os modernistas reduzem a Bíblia a um livro humano. Chamam esta visão Bíblica de "alta crítica". São os "desmistificadores" porque eles acham que desmistificam a Bíblia. Vamos deixa-los de lado por enquanto e explorar o diálogo entre protestantes ortodoxos e Católicos.

Devemos explorar quatro perguntas: como os protestantes ortodoxos experienciam a Bíblia, como eles pensam que os católicos a experimentam, o que eles crêem sobre a Bíblia, e o que eles acham que os Católicos crêem sobre ela. É importante começar com a experiência, a espiritualidade da Bíblia, pois esta é a chave para o seu entendimento.

Como, então, os protestantes experienciam a Bíblia? Primeiro de tudo, ela é sagrada. É a palavra de Deus ao homem, não palavras do homem sobre Deus. Nela Deus falou e continua a falar, não somente à humanidade, mas também a cada indivíduo.

Segundo, ela é o que os católicos chamariam de sacramental: isto é, ajuda a efetivar o que significa. Não faz isto por poder próprio (ex operato de opere) mas somente pelo poder da fé do leitor; então, em termos católicos, não é um sacramento, mas um sacramental.

Terceiro, é a verdade ? não somente verdade como correção lógica, mas verdade como alimento, alimentação, substância sólida. Os protestantes ecoam as palavras de Jr 15,16: "Acharam-se as tuas palavras, e eu as comi; e as tuas palavras eram para mim o gozo e alegria do meu coração; pois levo o teu nome, ó Senhor Deus dos exércitos".

Quarto lugar, é correta e segura, uma pedra num mundo de gelatina, um absoluto numa época de relativismo, uma âncora num mar tempestuoso. Para os protestantes, a Escritura mais propriamente que Pedro é a pedra onde a Igreja está fundada.

Quinta e mais importante de todas, é o lugar onde encontramos Cristo. O Cristo, a palavra de Deus, vem a nós pelas Escrituras, a palavra de Deus. Não é nenhuma coincidência que o mesmo título seja dado ao homem e ao livro, pois o tema principal deste livro é este homem (cf Jo 5,39).

Tudo isto é bem...católico, você diria. Então como os protestantes acham que experimentamos a Bíblia? A suspeita protestante clássica é que os católicos temem a Bíblia; que a Igreja proibiu a sua leitura durante séculos porque se assim fosse permitido o povo teria visto como as doutrinas católicas eram "antibíblicas".

Isto é simplesmente uma inverdade histórica, naturalmente, mas ainda é largamente acreditada pelos protestantes, por incrível que pareça. A fé está moribunda, apesar do forte estímulo do Vaticano II e de todos os mais recentes papas para que os leigos católicos leiam a Bíblia regularmente. Este estímulo ganhou mais respeito dos protestantes que qualquer outra coisa vinda de Roma desde a reforma protestante.

Os protestantes afirmam que tememos a Bíblia porque Lutero descobriu seu efeito. A reforma realmente começou quando Lutero experimentou o poder libertador do evangelho na sua Bíblia, mas não na sua Igreja; quando a graça substituiu a culpa e a fé substituiu o legalismo na sua vida, na ocasião de sua leitura do Novo Testamento, especialmente a carta aos Romanos. Foi onde achou sua doutrina chave, a justificação pela fé.

Exploraremos esta doutrina em outros tópicos. Por enquanto, basta dizer que o catolicismo não é um legalismo, embora isto seja freqüentemente noticiado pelos protestantes; que lemos e cremos na mesma Bíblia, incluindo seu ensino claro de que nós somos salvos pela graça libertadora de Deus, não por trabalhar na nossa ida ao céu. Os protestantes simplesmente não conseguem acreditar no que ouvem quando nós os contamos isto, como disse o Papa aos bispos luteranos alemães.

A crença dos protestantes ortodoxos sobre a Escritura pode ser resumida em três pontos principais: A Escritura é inspirada, infalível e suficiente. Primeiro, ela é inspirada. Cada um de seus livros tem pelo menos dois autores, um humano e um divino. O autor primário é Deus, cujo Espírito inspirou e guiou cada autor humano como um instrumento para dizer exatamente o que Deus quis revelar ao mundo.

Segundo, é, portanto, livre de erro, ou infalível, pois Deus não comete erros. Os fundamentalistas insistem em infalibilidade histórica, científica, embora pareça a outros protestantes um detalhismo desnecessário fazer a autoridade divina da Bíblia depender de se os soldados do exército de Senaquerib foram contados corretamente.

É o terceiro ponto, a suficiência somente da Escritura (Sola Scriptura), que separa protestantes de católicos. Os protestantes não acreditam em qualquer doutrina que claramente não encontram na Escritura (ex., transubstanciação, Assunção de Maria, os sete sacramentos).

O que os Protestantes pensam sobre nós em relação às Escrituras? Que é secundária à Igreja e que a Igreja ensina coisas bem diferentes dela. Dizem que nós, assim como os fariseus condenados por Jesus, confundimos tradição humana com revelação divina, "a doutrina que ensinam são preceitos dos homens. . . E assim invalidais o preceito de Deus em nome de vossa tradição" (Mc 7,7-13). Sua informação é equivocada, mas seus motivos são fortes. Aliás, dado este erro, sua crítica é admirável. Mas vamos agora examinar este erro.

Vimos (1) - a experiência protestante da Escritura, (2) - a idéia protestante da experiência católica da Escritura, (3) - a crença protestante sobre a Escritura, e (4) - a idéia protestante da crença católica sobre a Escritura. O primeiro e o terceiro pontos são amplamente corretos e admiráveis; mas o segundo e o quarto são equivocados. Os católicos podem concordar, e concordam, com todos os pontos protestantes positivos sobre a Escritura, porém corrige os negativos. Estes são a Sola Scriptura e os equívocos sobre as doutrinas e atitudes católicas. Deixe-nos agora resumir como deve ser uma correção fraternal.

Há pelo menos quatro erros na doutrina da Sola Scriptura. Primeiro, separa a Igreja e a Escritura. Mas elas são um só. Não existem dois cavalos rivais na corrida da autoridade, mas apenas um cavaleiro (a Igreja) e um cavalo (a Escritura). A Igreja como escritora, canonizadora e intérprete da Escritura não é outra fonte de revelação, mas a autora, guardiã e mestra da única fonte, a Escritura. Nós não somos ensinados por um professor sem livro nem por um livro sem professor, mas por um professor, com um livro, a Escritura.

Segundo, a Sola Scriptura é auto-contraditória, pois diz que devemos acreditar somente na Escritura, mas ela mesma nunca diz isto! Se acreditarmos somente no que a Escritura ensina, não acreditaremos na Sola Scriptura, pois a Bíblia não ensina Sola Scriptura.

Terceiro, a Sola Scriptura transgride o princípio de causalidade, que diz que um efeito não pode ser maior que sua causa. A Igreja (os apóstolos) escreveram a Escritura, e os sucessores dos apóstolos, os bispos da Igreja, decidiram sobre o seu cânon, a lista de livros a serem declarados inspirados e infalíveis. Se a Escritura é infalível, então sua causa, a Igreja, também deve ser infalível.

Quarto, há o argumento prático que o livre-exame leva ao denominacionalismo. Deixe quinhentas pessoas interpretar a Bíblia sem a autoridade da Igreja e logo haverá quinhentas denominações. Mas o denominacionalismo é um escândalo intolerável para padrões Bíblicos?veja Jo 17,20-23 e 1 Cor 1,10-17.

Quinto, a Sola Scriptura não existia, pois a primeira geração de cristãos não possuiu o Novo Testamento, só a Igreja a ensiná-los.

Finalmente, devemos esclarecer dois equívocos:

Primeiro, a Igreja Católica não reivindica ser divinamente inspirada para adicionar quaisquer novas doutrinas, somente afirma que protegeu, conservou e interpretou divinamente as que já existiam, o depósito da fé. Não afirma adições mas rejeita subtrações.

Segundo, todas as doutrinas da Igreja derivam da Escritura. São Tomás de Aquino identifica a sacra doctrina, o ensino sagrado ou revelação divina, com a Escritura.

Mesmo as doutrinas marianas preenchem estes dois critérios. Por exemplo, os cristãos acreditam na assunção de Maria desde o início, e não somente a partir de 1954, quando o dogma foi definido. E as doutrinas Marianas são baseadas no que a Escritura conta-nos sobre Maria.

Nossas respostas às objeções protestantes devem vir de duas frentes, pois as objeções vêm de duas frentes: experienciais e doutrinais. As objeções protestantes surgem de argumentos de amor e medo ? amor às Escrituras e medo que católicos percam ou deixem este amor. Somente amando e vivendo a Escritura podemos provar aos protestantes que nós somos irmãos e, portanto, não devemos permanecer separados. O Ecumenismo e o caminho à união começam aqui, com a Escritura como nosso mapa comum nesta estrada. Como ousamos saber e amar menos que qualquer protestante? Ela ? a Bíblia ? é o nosso Livro!

Autor: Peter Kreeft
Tradução para o Veritatis Splendor por: Rondinelly Rosa Ribeiro
Fonte: http://www.veritatis.com.br/apologetica/solascriptura/910-a-autoridade-biblica

O QUE É INSPIRAÇÃO BÍBLICA?

A Bíblia é a Palavra de Deus inspirada. Mas como se dá essa inspiração? Talvez imaginemos um ditado mecânico como a de um chefe à sua datilógrafa. Esta escreve coisas que não entende e que são entendidas apenas pelo chefe e sua equipe. Isso não é a inspiração bíblica. Pois, ela não dispensa certa compreensão do autor humano (o hagiógrafo), nem sua participação na redação do texto sagrado.

A inspiração bíblica também não é revelação de verdades que o autor humano não conheça. Existe sim, o carisma da Revelação, especialmente nos profetas. Mas é diferente da inspiração bíblica. Esta se exercia, por exemplo, quando o hagiógrafo descrevia uma batalha ou outros fatos documentados em fontes históricas, sem receber revelação divina.

Inspiração Bíblica é a iluminação da mente do autor humano para que possa, com os dados de sua cultura religiosa e profana, transmitir uma mensagem fiel ao pensamento de Deus. O Espírito Santo fortalece a vontade e as potências executivas do autor para que realmente o hagiógrafo escreva o que ele percebeu.

Tais livros são todos humanos (Deus em nada dispensa a atividade racional do homem) e divinos (Deus acompanha a redação do homem escritor). A Bíblia é um livro divino-humano. Transmite o pensamento de Deus em roupagem humana. Assemelha-se ao mistério da Encarnação, onde Deus se revestiu de carne humana, pois na Bíblia a Palavra de Deus se revestiu da palavra do homem (judeu, grego, com todas as suas particularidades de expressão).

A finalidade da inspiração bíblica é estritamente religiosa. Não foi escrita para nos ensinar ciências naturais, mas aquilo que ultrapassa a razão humana (o sentido do mundo, do homem, da vida, da morte, etc diante de Deus). Portanto, não há contradição entre a Bíblia e as ciências naturais. Mesmo Gênesis 1-3 não pretende ensinar como nem quando o mundo foi feito.

A Bíblia só é inspirada quando trata de assuntos religiosos? Há páginas na Bíblia não inspiradas?

Toda a Bíblia, em qualquer de suas partes, é inspirada, qualquer que seja a sua temática. Ocorre, porém, que Deus comunica sua mensagem religiosa em linguagem familiar pré-científica, bem entendida no trato quotidiano. Por exemplo, quando falamos em "nascer-do-sol" ou "pôr-do-sol", supomos o sistema geocêntrico (ultrapassado), mas não somos taxados de mentirosos, porque não pretendemos definir assuntos de astronomia. Assim, quando a Bíblia diz que o mundo foi feito em 6 dias, ou que a luz foi feita antes do sol e das estrelas, ela não ensina teorias astronômicas, mas alude ao mundo em linguagem dos hebreus antigos para dizer que o mundo todo é criatura de Deus. Portanto, em assuntos não-religiosos, a Bíblia adapta-se ao modo de falar familiar ou pré-científico dos homens que, devidamente entendido, não é portador de erro.

Também todas as "palavras" da Escritura são inspiradas. Os conceitos dos homens estão sempre ligados às palavras. Quando o Espírito Santo iluminava a mente dos autores sagrados, iluminava também as palavras. É por isto que os próprios autores sagrados fazem questão de realçar de realçar vocábulos da Bíblia: Jo 10,34-35; Hb 8,13; Gl 3,16.

Notemos, porém, que somente as palavras das línguas originais (hebraico, aramaico e grego) foram assim iluminadas. As traduções bíblicas não gozam do carisma da inspiração. Por isso, ao ler a Bíblia, devemos nos certificar de estarmos usando uma tradução fiel e equivalente aos originais.

"Toda a Escritura é inspirada por Deus, e útil para ensinar, para repreender, para corrigir e para formar na justiça." (2Tm 3,16).
Para extrair a mensagem religiosa é absolutamente necessário levar em conta o gênero literário do texto. Por exemplo, "leis" tem seu gênero literário próprio (claro e conciso para que ninguém possa se desculpar), a poesia tem gênero literário oposto ao das leis (metafórico, subjetivo). Uma crônica é diferente de uma carta. Uma carta comercial é diferente de uma carta de família, uma fábula é diferente de um fato histórico.

Na Bíblia há diversos gêneros: histórico; história em estilo popular (Sansão); poesia; parábola; alegoria (Jo 15,1-6); a lei e muitos outros. Cada gênero tem suas regras de interpretação próprias. Não posso entender uma poesia (cheia de imagens) como entendo uma lei (clara e sem imagens). Assim, a criação do mundo em Gn 1 é poesia. Enquanto a narração da Última Ceia é relato histórico. Este devo entender ao pé da letra, enquanto aquele outro não o posso.

Antes de ler um livro da Bíblia é necessário se informar do seu gênero literário, a fim de entender os critérios de redação adotados pelo autor. Tal informação pode ser obtida nas introduções que as edições bíblicas apresentam para cada livro sagrado.

Pergunta-se ainda: se a Bíblia é toda inspirada, como se pode explicar as "contradições" e "erros" que ela contêm? Afinal Deus existe como afirma Jo 1,18 ou não existe como afirma Sl 52(53), 1 ? O sol parou, conforme Js 10,12-14 e Is 38,7s? De Abraão a Jesus houve apenas 42 gerações (Mt 1,17) ? Afinal o maná, era insípido e pouco atraente (Nm 11,4-9) ou saboroso (Sb 16,20s) ?

Responde-se: A Bíblia é isenta de erros em tudo aquilo que o hagiógrafo como tal afirma e no sentido em que o hagiógrafo entendeu.

Portanto, em outras palavras, para obtermos a mensagem isenta de erros devemos verificar se é algo afirmado pelo próprio hagiógrafo, ou se ele afirmou em nome de outrem e qual o gênero que ele adotou.

Voltando aos casos apontados: Em Jo 1,18 o hagiógrafo, como tal, é quem afirma que Jesus revelou Deus Pai. Mas no salmo 52(53), 1, o hagiógrafo apenas afirma (com plena veracidade) que o insensato nega a existência de Deus. O insensato erra ao negar, o salmista apenas verifica o fato. A "parada do sol" está dentro de um contexto de poesia lírica, onde "estacionamento do sol" quer dizer "escurecimento da atmosfera, clima de tempestade de granizo". Josué pediu a Deus essa tempestade, a qual é relatada em Js 10,11. Os demais casos se enquadram no uso do gênero literário do midraxe.

Midraxe é uma narração de fundo histórico, ornamentada pelo autor sagrado para servir à instrução teológica. O autor conta o fato de modo a destacar o valor ou o significado religioso deste fato. Sua intenção não é a de um cronista, mas a de um catequista ou teólogo. O caso do maná: em Nm há uma narração de cronista, enquanto em Sb é apresentado o sentido teológico do maná num midraxe. O maná era saboroso não por seu paladar, mas por ser o penhor da entrada do povo na Terra Prometida. As 42 gerações relatadas entre Abraão e Jesus visa destacar a simbologia do número 42 (3 x 14): em Cristo se cumpre todas as promessas feitas a Israel, é o Consumador da obra de Davi.

Ao meditarmos a Bíblia, oremos como Santo Agostinho: "Faze-me ouvir e descobrir como no começo criaste o céu e a terra. Assim escreveu Moisés, para depois ir embora, sair deste mundo. Agora não posso interrogá-lo. Se pudesse, eu lhe imploraria para que me explicasse estas palavras. Mas não posso interrogá-lo. Por isso dirijo-me a Ti, Verdade, Deus meu, de que estava ele possuído quando disse coisas verdadeiras. E Tu, que concedeste a teu servo enunciar estas coisas verdadeiras, concede também a mim compreendê-las." (Confissões XI 3,5)

"Nenhuma profecia da Escritura é de interpretação particular. Nenhuma foi proferida pela vontade humana. Homens inspirados pelo Espírito Santo falaram da parte de Deus" (2Pd 1,20-21).

Autor: D. Estêvão Bettencourt, OSB
Fonte: http://www.veritatis.com.br/doutrina/a-palavra-de-deus/920-o-que-e-inspiracao-biblica

A ORIGEM DA BÍBLIA

Muitas pessoas se surpreendem ao saber que a Bíblia utilizada pelos protestanes é diferente da Bíblia utilizada pelos católicos. Mas qual é a diferença?

Como já escrevemos, o catálogo sagrado foi começou a ser definido pela Igreja Católica em 393 durante o Concílio Regional de Hipona (África). A Igreja desde os tempos apostólicos, utilizou a versão grega dos livros sagrados, chamada Septuaginta.

Desde o séc. IV até o séc. XVI, a Bíblia era a mesma para todos os cristãos. A diferença ocorreu durante a Reforma Protestante, quando Martinho Lutero renegou 7 livros do antigo testamento (Tobias, Judite, 1 Macabeus, 2 Macabeus, Sabedoria, Eclesiástico, Baruc, trechos de Daniel e Ester) e a carta de Tiago do Novo Testamento.

Lutero renegou tais livros porque eram fortemente contrários à sua doutrina. Por causa de uma das colunas de sua doutrina a "Sola Fide" ou Somente a fé, Lutero alterou o famoso versículo "Mas o justo viverá da fé" (Rm 1,17) para "Mas o justo viverá somente pela fé", e renegava a Carta de Tiago, que ensina que somente a fé não basta, é preciso as obras. Devido ao prestígio que a Carta de Tiago tinha, Lutero não obteve sucesso ao excluir tal livro. Quanto ao Antigo Testamento, os protestantes então revolveram ficar com o catálogo definido pelos Judeus da Palestina.

Este catálogo Judaico foi definido por volta de 100 DC na cidade de Jâmnia, e estes foram os critérios estabelecidos pelos judeus para formarem seu cânon bíblico:

O livro não poderia ter sido escrito fora do território de Israel;
O livro teria que ser totalmente redigido em Hebraico;
O livro teria que ser redigido até o tempo de Esdras (458-428 AC);
O livro não poderia contradizer a Torah de Moisés (os 5 livros de Moisés).


Devido à enorme conversão de judeus ao cristianismo, principalmente os judeus de língua grega, é que os judeus que não aceitaram a Cristo, desenvolveram um judaísmo rabínico, isto é, um judaísmo ultra-nacionalista, para frear a conversão das comunidades judaicas ao cristianismo. Com este cânon bíblico, era proibida pelo menos a leitura de todo o Novo Testamento, que mostra fortemente o cumprimento da promessa do Messias na pessoa de Cristo.

Muitos dos originais hebraicos de alguns livros foram perdidos, existindo somente a versão grega na época da definição do cânon judaico. Isto significa que livros como Eclesiástico e Sabedoria, escritos por Salomão, não foram reconhecidos pelos judeus de Jâmnia, além de outros livros que foram escritos em aramaico durante o domínio caldeu e persa. Recentemente os arqueólogos encontraram em Qruman no Mar Morto, o original hebraico do livro Eclesiástico.

Estes livros do Antigo Testamento que não foram unânimimente aceitos são chamados técnicamente de deuterocanônicos.

Os protestantes entram então em grande contradição, pois aceitam a autoridade dos Judeus da Palestina para o Antigo Testamento e não aceitam a mesma autoridade para o Novo Testamento. Aceitam a autoridade da Igreja Cátólica para o Novo Testamento e não aceitam a mesma autoridade para o Antigo Testamento.

Os apóstolos em suas pregações utilizavam a versão grega dos livros antigos, note que das 350 citações que o Novo Testamento faz dos livros do Antigo Testamento, 300 também se referem aos livros deuterocanônicos.

Autor: Alessandro Lima
Fonte: http://www.veritatis.com.br/apologetica/solascriptura/1058-a-origem-da-biblia